A IA escreve código, responde e-mail, resume reunião e monta apresentação. Tudo aquilo que dá para fazer por texto, sozinho, sem ninguém do lado.
E, no meio disso, a grande pauta de uma parte do mercado continua sendo quantos dias por semana dá para ficar em casa.
Eu acho isso cômico. E sei que vou apanhar por dizer.
Primeiro, o que este texto não é
Não é uma opinião que vale para todo mundo. Especialmente para quem ganha abaixo do que permite o luxo de ter um carro. Para quem atravessa a cidade em pé dentro de um ônibus, o home office é outra conversa, e eu não vou fingir que é a mesma.
Não é para o operacional. Para quem simplesmente opera alguma coisa, onde não existe intelecto, existe reprodução. Aliás, acho que nada neste blog é para isso. E se eu pudesse dar uma dica: fuja de ser só isso. É exatamente essa a parte que a máquina come primeiro.
Não é uma defesa da morte de um modelo. Minha opinião sobre o assunto é forte, claramente. Sei o risco que estou correndo. Mas o que eu defendo é outra coisa, e ela está no terceiro motivo.
Motivo 1: me chamam o dia inteiro
Talvez eu seja centralizador. Talvez.
Mas é inegável: recebo de cinco a dez entradas na minha sala por dia. Não vou mentir. Todas, absolutamente todas, poderiam ser uma mensagem escrita. E eu responderia por escrito.
Tirando o óbvio, que o entendimento pessoal é melhor, faz a conta comigo. Pego o número baixo: cinco. Cada mensagem leva uns dez minutos para ser escrita direito. Eu levo mais três para responder.
Cinco vezes treze minutos: uma hora e cinco minutos. Para manter um trabalho que, presencialmente, custa quinze, vinte minutos.
E essa conta é generosa. Ela supõe resposta instantânea. Na vida real existe o atraso. Existe a pessoa que está jogando videogame, comendo seu sucrilhos e olhando para o céu, porque tem um trabalho privilegiado que permite usar pantufa.
Tem um detalhe que me incomoda mais do que a conta. Trabalho que cabe inteiro numa mensagem escrita é justamente o trabalho que a IA faz melhor, mais rápido e sem pantufa. Se tudo o que você entrega pode ser pedido por texto e devolvido por texto, parabéns: você acabou de descrever um prompt.
Motivo 2: as pessoas do lado
Não vou citar livro aqui. Mas é claro que times que se relacionam bem fora do trabalho performam melhor.
E não cai nessa do Corinthians de 1999. (Para quem não acompanha futebol: o time foi campeão brasileiro com um elenco que, diz a lenda, não se suportava.) Até pelo tempo que faz, dá para perceber que não existem tantos exemplos assim de "dá para não gostar e trabalhar bem". Dá. Só não me diga que é bom.
Por isso esse é o motivo que eu acho mais cômico. Se eu trabalho com gente inteligente, gente boa, por que eu ia querer distância? Parte do nosso trabalho faz parte da nossa identidade. Identidade. De nós.
Por que eu faria isso à distância, segurando com uma pinça, com o discurso da Dona Florinda para o Kiko: "não se misture com essa gentalha"?
Mergulhe. Esteja presente. Pergunte o porquê. Pergunte como você pode ajudar. Sugira algo louco: "e se...?". Faça piada, e depois peça desculpa quando passar do tom.
Remotamente, toda piada é fora do tom.
Motivo 3: home office é prêmio, não pantufa diária
Quando se trabalha de verdade, o home office vira um prêmio. Um caminho para um mundo novo, de fato. Não um privilégio diário. Um privilégio para ser muito bem usado.
Eu adoro quando trabalho em casa. Exceções escolhidas por mim. Nesses dias faço questão de que minhas filhas faltem na escola, e tento explicar alguma coisa do meu trabalho para elas, que claramente estão cagando para aquilo depois de três minutos.
Isso faz bem. E essa possibilidade não tem que morrer.
É por isso que eu não defendo o fim do modelo. Defendo que ele volte a valer alguma coisa. O que acontece todo dia deixa de ser prêmio e vira rotina. E rotina ninguém comemora.
Fique com o controle remoto
A IA vai continuar ocupando tudo o que é reprodução, tudo o que cabe num texto, tudo o que dá para fazer sozinho. O que sobra é o que acontece quando tem gente na sala: o "e se...", a piada fora do tom, a pergunta do porquê, os vinte minutos que resolvem uma hora de mensagem.
Enquanto isso, tem gente brigando pelo direito de não estar na sala.
Pode ficar com o controle remoto. Só não reclama quando alguém mudar de canal por você.
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