Eu sempre fugi de reunião. Daily para informar o óbvio, apresentação de gráfico de Gantt que cabia inteira num e-mail, agenda cheia só para ninguém dizer que a agenda estava vazia. Por anos, o meu instinto de desenvolvedor foi um só: me deixa programar que eu resolvo.
Pois é. Hoje, na posição que eu ocupo, nunca foi tão produtivo só conversar.
Não o papo para cumprir tabela, nem falar para quem não se importa. Conversar de verdade: sobre o problema, sobre o futuro, sobre como as coisas estão sendo resolvidas e o que dá para fazer com aquilo. Demorei a perceber que isso não era eu ficando velho ou virando gestor. Era o trabalho mudando de lugar.
O operacional acabou. A profissão, não.
A gente, macaco velho de guerra do desenvolvimento, vendeu caro a ideia de que acabou. Vou ser direto: o nosso operacional acabou, sim. A nossa profissão, não. A nossa ciência, muito menos.
O problema é mais sutil, e é o olhar. A gente julga o que está acontecendo agora com uma bagagem que, em grande parte, não faz mais sentido para o tempo atual. É um jogo de números: toda decisão baseada em experiência passada — vinculada a times, a prazos e, de novo, à ótica do operacional — tende a estar errada. Você aprendeu, mediu e sentiu tudo aquilo com outras ferramentas, outro ritmo, outro custo de errar.
Não posso mentir: umas três, quatro vezes por semana, às vezes mais, eu me pego tendo que forçar um olhar novo sobre alguma coisa. A experiência continua valendo. O que envelheceu foi a régua.
O trabalho declarativo
Quem programa conhece a diferença entre código imperativo e declarativo. No imperativo, você diz como fazer, passo a passo. No declarativo, você diz o que quer e quais são as regras — e deixa o motor decidir o caminho.
É esse o nome que eu dou para o trabalho novo.
O imperativo virou da máquina. O declarativo é nosso.
Com o vibecoding, todo mundo gera código. E eu vejo, na prática, aplicação nascendo e ficando de pé — não por sorte, mas porque alguém pensou o fluxo em que aquilo ia ser construído. O que sobrou para a engenharia de software é justamente isso: definir as fronteiras, as regras e o ecossistema onde os aventureiros vão brincar.
Isso pede uma mudança de postura. A gente precisa parar de declarar guerra ao novo mundo e declarar paz. Que codifiquem — todo mundo, à vontade. Quem limita e determina as regras somos nós. (Ou nozes, para os íntimos.)
O builder e o risco de parar todo mundo
O conceito de builder, no meu ver, faz muito sentido — e tem um efeito que pouca gente comenta: ele dá a quem vem do operacional um jeito de subir. Gente que nunca teve chance de construir agora constrói. Isso é muito bom.
Mas tem o outro lado. Quando a entrega do sênior e a do júnior se unificam — no sentido da entrega final, do operacional que chega pronto na mesa —, a gente fica mais suscetível a estagnar todo mundo. Se o resultado parece igual, para que crescer? Se ninguém mais precisa aprender o caminho, quem vai aprender a desenhar o mapa?
A relação que ninguém olha
A partir do momento em que a IA entrega o software, o que sobra para cuidar são as relações. E no ambiente corporativo as pessoas — e eu não julgo — muitas vezes colocam o objetivo acima delas.
O que eu sinto, e quando digo sinto estou dizendo claramente que é um puta achismo: existe uma frente das relações que a gente quase não olha, e ela se chama capacitação. Ensinar alguém é relação. Formar alguém é relação. E se a entrega de todo mundo parece igual, capacitar é o único jeito de não deixar todo mundo parado no mesmo lugar.
Ainda somos técnicos
Não vamos mentir para nós mesmos: ainda somos técnicos. A ciência da computação não deixou e nunca vai deixar de existir. E não vamos ser os chatos que precisam cravar o fim de alguma coisa.
Eu mesmo, com toda essa conversa sobre conversar, ainda tenho dificuldade de explicar uma decisão de forma não técnica para outros setores. O trabalho novo não apaga o antigo. Ele exige o antigo e mais um pouco — e esse "mais um pouco" é o que eu estou aprendendo agora, junto com todo mundo.
Tudo começou agora
Esse tipo de texto me anima. Em cada parágrafo eu senti que dava para prolongar, prolongar e prolongar — e é por isso que ele vai virar uma série aqui dentro. Este é o primeiro.
Se você chegou até aqui pensando, nem que seja um pouquinho, "é verdade, tudo começou agora, está todo mundo aprendendo de novo", eu já fiz a viagem que queria.
Em resumo:
Não se apegue ao que você faz. Se apegue a com quem você faz.
Não se apegue ao modo de construir. Se apegue ao que está construindo.
Não se apegue a ser melhor que alguém — por mais difícil que isso seja. Se apegue a estar junto de alguém.
Leia também: A IA está roubando seu emprego e você querendo estar no sofá, o outro lado da mesma ideia: se o trabalho que sobrou é conversar, ele acontece na sala. E Playbook Humano, sobre o que sobra para o humano quando a máquina dá conta da parte que tinha manual.